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17 de mar. de 2015

Dificuldades de um formulador de Política Econômica

Por Johann Soares*


Em tempos de instabilidade econômica, em que os indicadores macroeconômicos começam a apresentar resultados preocupantes, se debate o papel do governo na condução de suas políticas econômicas, sempre com o intuito de amenizar tais choques ou até mesmo  eliminá-los. O debate envolve uma questão fundamental da macroeconomia moderna, a necessidade ou não da intervenção do governo nestes momentos de crise.

 Após a crise de 1929, com as ideias de J. M. Keynes, ficou convencionado de que o governo teria sim um papel importante de estabilizador da economia, de que seus gastos ampliariam o nível de produto e, por conseguinte, reduziriam a taxa de desemprego.  Porém, até os dias atuais, surgiram várias outras teorias colocando o governo como um agente desestabilizador, no sentido de que, ele mais atrapalha do que ameniza os choques e, portanto, deve adotar ações mais passivas durante as crises. Entre os economistas que se destacaram na defesa da passividade das políticas econômicas estão Milton Friedman e Robert Lucas.

  Atualmente, a discussão ainda não cessou, porém, é quase unanimidade entre os economistas a série de dificuldades com que o governo se defronta ao formular suas políticas econômicas. Então, tendo em vista este acalorado debate e o contexto atual da conjuntura macroeconômica brasileira, se torna necessário expor e explicar quais são estas dificuldades e os métodos para contê-las.
  Inicialmente há a questão das defasagens. Quando ocorre um choque, o governo precisa primeiro, identificá-lo, a partir de suas características e seus efeitos. Depois é necessário que ocorra um estudo sobre a necessidade de intervenção e como se dará a implementação da política econômica, até que, de fato, se aplique as medidas consideradas necessárias. Todo esse processo demanda tempo, sendo que o intervalo entre a ocorrência do choque e a implementação da política econômica é denominado de Defasagem Interna.

  Quando a política é implementada pela autoridade econômica, os seus efeitos não são percebidos imediatamente na economia como um todo, eles repercutem lentamente na estrutura da sociedade e os agentes apenas respondem a essa politica após um determinado período. O intervalo de tempo entre a implementação da política econômica corretiva e a sua repercussão na economia é denominado de Defasagem Externa.

    Na totalidade do processo, ambas as defasagens se acumulam, fazendo com que o intervalo entre a ocorrência do choque e a repercussão da politica econômica seja significante. Tal fato representa um problema considerável para o governo, pois o período de defasagens pode ser tão extenso que, nele próprio, a economia já terá voltado ao normal naturalmente, fazendo com que os efeitos da politica econômica causem um novo choque desestabilizador.

  Dessa forma, vamos supor que, no final do ano de 2015, a taxa de desemprego no Brasil seja de 9% e que o governo decide realizar uma expansão monetária para impulsionar o produto e assim diminuir o desemprego, além do mais, digamos que a defasagem total da política monetária no país é de seis meses. Quando o a expansão monetária realmente fizer efeito sobre a economia, pode ser que o atual choque de elevação sobre a taxa de desemprego já tenha sigo revertido, de forma que tal indicador, já tenha voltado ao seu nível natural. Portanto, quando passar a defasagem externa, a expansão monetária se deparará com um mercado de trabalho em equilíbrio, causando uma maior redução da taxa de desemprego (abaixo de seu nível natural) e pressões inflacionárias, desestabilizando novamente a economia.

  A partir do exemplo acima, pode-se ver que as defasagens são um forte argumento contra as políticas econômicas e uma dificuldade relevante para o formulador. Porém, há alguns mecanismos utilizados pelos economistas para amenizar as flutuações econômicas sem precisar passar pelas duas defasagens. Tais mecanismos são os estabilizadores automáticos, que possuem um efeito menor, mas amenizam os choques. Tais estabilizadores não precisam ser acionados, pois são corrigidos automaticamente. Um exemplo são os impostos progressivos, que impõem taxas distintas para diferentes níveis produção e renda. Então, quando a produção está aquecida, a taxa imposta pelo governo se eleva, servindo como um freio natural.

  Outra dificuldade com que se deparam os formuladores de política econômica é a existência das expectativas. Uma política implementada não depende apenas de seus efeitos diretos, mas também dos efeitos que ela causa nas expectativas dos agentes. Tal ponto faz com que a ação do governo se torne incerta, pois é difícil quantificar a expectativa dos indivíduos. Além disso, muitos modelos nem consideram a expectativa da população sobre uma politica econômica, o que pode alterar totalmente o resultado desejado. Tal critica às políticas adotadas pelo governo foi formulada por Robert Lucas.
  Para representar melhor a forma com que as expectativas influem no resultado de um choque, podemos utilizar o ferramental microeconômico da Teoria dos Jogos. O problema descrito nada mais é do que uma interação estratégica entre o formulador de política econômica e a expectativa dos indivíduos. O que os agentes fazem depende do que eles esperam que os formuladores façam, e a ação destes depende do que esperam que aconteça na economia. Portanto, podemos ver que o jogo estratégico entre estes dois jogadores pode ser muito complexo e estar envolto de incertezas, o que faz com que seja provável a ocorrência de efeitos indesejáveis, dadas certas politicas econômicas.

  É necessário explicar um exemplo de como as expectativas influenciam as políticas econômicas. Vamos supor que o Banco Central brasileiro publique uma meta de inflação de 2% e que os indivíduos confiem perfeitamente em tal meta. Além disso, o Banco Central sabe que a sensibilidade da inflação em relação à diferença entre o desemprego efetivo e o natural é 0,4 e a taxa natural de desemprego é de 4%. Para este cálculo, precisamos utilizar a curva de Phillips:


  Se o governo seguir exatamente a sua meta de inflação, a taxa de desemprego efetiva será equivalente à natural, atingindo um patamar de 4%. Porém, o formulador de política econômica pode adotar uma tática conhecida como inconsistência temporal, ou seja, um incentivo para se desviar de sua escolha dado que o outro jogador já tenha feito sua jogada. Isso significa que ele abandonaria sua meta publicada para atingir resultados possivelmente melhores em um determinado contexto. Visto isso, o governo observa que se aceitar uma pequena elevação da inflação para 3% terá uma redução considerável do desemprego para 1,5%, um dilema tentador em termos de política econômica.

  Porém, os agentes perceberão que o governo não seguiu a meta prometida e elevarão a expectativa inflacionária para o novo patamar de 3%. Essa nova jogada faz com que a taxa de desemprego volte a ser 4%, mas com uma inflação maior que a anterior, sendo que o governo só poderia reduzir o desemprego aumentando novamente a inflação. Este exemplo demonstra como as expectativas podem fazer com que a política econômica tome um resultado contrário ao desejado.

  Caso o governo realize inconsistências temporais sucessivas, perderá a sua credibilidade perante os agentes, tornando o jogo estratégico muito mais complexo e incerto. Portanto, uma medida que pode facilitar o jogo entre o formulador e os indivíduos é a busca da credibilidade da autoridade monetária. Este objetivo pode ser alcançado com a independência do Banco Central, que ficaria livre de pressões e interesses políticos, deixando de preocupar-se apenas com o curto prazo, por causa de eleições, populismo, entre outros motivos. Dessa forma, o formulador poderia alcançar uma escolha racional sem a influência de segundos interesses.

  Para eliminar as dificuldades expostas neste estudo, os economistas fazem uso da elaboração de cenários econômicos, o que inclui a construção de modelos que expliquem as variáveis que o governo pretende descobrir, além de relacioná-las com outras variáveis, denominadas explicativas. Esse método busca prever os choques ou os efeitos de uma determinada política de forma que se exclua os efeitos das defasagens e, em alguns casos, as flutuações das expectativas.

  Contudo, os economistas não entram em acordo sobre um modelo que seja realmente efetivo e elimine todas as incertezas. Pelo contrário, existem inúmeros modelos de política econômica que induzem resultados diversos, dado um choque na economia. Tal ponto limita em muito a atuação do governo, pois até a utilização dos modelos é incerta e eles se demonstram limitados. Para demonstrar essa dificuldade, um estudo encomendado pela Brookings Instituition solicitou a doze dos principais formuladores de modelos macroeconométricos a previsão de uma mesma problemática, a elevação em 4% do nível de moeda nominal nos Estados Unidos.

  O gráfico abaixo mostra o resultado de cada um dos modelos em termos de desvio percentual do nível estacionário da economia. É perceptível que os modelos são muito distintos respondendo à mesma pergunta, o que ilustra de forma suficiente a incerteza com que se depara um formulador de politica econômica ao tentar prever o efeito dos choques em uma economia.

Fonte: Blanchard, Olivier. Macroeconomia, 4ª edição, Ed. PEARSON, Prentice Hall, 2007. (dados aproximados)

 
  O resultado do estudo mencionado põe em cheque a capacidade de previsão dos economistas, demonstrando que os seus resultados podem ser bastante incertos, causando efeitos indesejáveis na conjuntura macroeconômica de um país. Porém, os economistas são os mais capacitados para efetuar tais previsões. A primeira geração de modelos de previsão, liderada por Franco Modigliani, representou um grande avanço nas políticas econômicas e os modelos vêm desenvolvendo análises cada vez mais satisfatórias, sendo que em um futuro breve, poderemos realizar politicas econômicas com eficácia, no sentido de previsão.

  Entretanto, este texto demonstrou que atualmente, as dificuldades impostas ao formulador de politica econômica são consideráveis e plausíveis. Por esse motivo, muitos economistas consideram que o governo não deve intervir para não agravar a situação da economia em um momento de crise. O governo brasileiro, que está passando por um desses tempos de turbulência, deve estar atento à decisão e à condução de politicas econômicas para que nossa economia não seja desestabilizada sucessivamente por choques indesejados. A função de um formulador de politica econômica é delicada e nem sempre a intervenção é o melhor caminho à estabilidade.


Referências Bibliográficas

BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia, edição, Ed. PEARSON, Prentice Hall, 2007.
SACHS, J. D.; LARRAIN, B. F. Macroeconomia. São Paulo: Makron, 1995.

LOPES, L. M.; VASCONCELOS M. A. S. Manual de Macroeconomia, 3ª edição, Ed. ATLAS, 2011.

3 de mar. de 2015

Explicação e expectativa do desemprego brasileiro

Por Johann Soares*

No mês de janeiro tivemos um aumento considerável da taxa de desemprego brasileira em relação ao mês de dezembro de 2014. A taxa subiu um ponto percentual, passando para 5,3%. Este aumento foi maior que as expectativas das principais consultorias do país, que esperavam algo por volta de 5%.
A publicação do IBGE, por meio da PME, foi marcada por uma maior procura de emprego e a dispensa de muitos postos, o que causou o aumento da taxa de desemprego. Historicamente, o mês de janeiro apresenta taxas mais elevadas por causa da dispensa de empregos temporários e da maior procura por trabalho após as festas de fim de ano.


Por outro lado, ocorreram também variações indicadoras de instabilidade econômica, como a queda da geração de postos de trabalho, reduzindo 2,1% em relação a dezembro e 1,9% em relação a janeiro do ano passado. Tal fator demonstra a perda de ritmo da economia, o que vem acontecendo desde o início de 2014, porém o efeito da elevação na taxa de desemprego só está transparecendo consideravelmente em 2015. Essa defasagem é explicada pela crescente rigidez da legislação trabalhista e pelo intenso processo de formalização. Em termos técnicos, significa que ocorre no Brasil o fenômeno de "Labor Hording", presente na relação produto-emprego. Tal fenômeno explica que, em uma situação de depressão econômica, as firmas vão hesitar ao demitir seus funcionários, decido ao custo associado a esse processo.


Tendo explicado a variação atual da taxa de desemprego, é nossa preocupação prever quais serão suas variações futuras, traçando um panorama do mercado de trabalho em 2015. Infelizmente, as expectativas para a taxa no país são de elevação considerável.


Inicialmente, temos a relação produto-emprego. Por vários períodos consecutivos, a nossa produção tem crescido a níveis irrisórios e, segundo a OCDE, o PIB deve crescer 0,3% em 2014 e 1,4% em 2015. Tais números são incapazes de manter o desemprego no nível atual. Essa relação é explicada pela Lei de Okun, onde o crescimento do PIB precisa ser maior que sua taxa natural para causar pressão negativa no desemprego. Atualmente, a taxa natural de crescimento do PIB no país é de 2,24%, mostrando que os valores esperados pela OCDE são ineficazes para fins de desemprego.


Utilizando as componentes cíclicas das séries retiradas dos dados de PIB (IBGE) e taxa de desemprego (PME-IBGE) de janeiro de 2012 até dezembro de 2014, obtivemos a correlação cruzada com 3 defasagens entre as duas variáveis. Para isso, fizemos uso do filtro HP e da função ccf do R, que também nos fornece os gráficos das correlações e seus respectivos intervalos de confiança.

Variáveis
t-3
t-2
t-1
t
t+1
t+2
t+3
Desemprego
0,039
0,200
0,606
1,000
0,606
0,200
0,039
PIB
-0,217
0,120
0,211
-0,007
0,003
0,299
0,333
Tabela 1: Correlações cruzadas. Fonte: IBGE. 

 Mesmo se desconsiderássemos o baixo crescimento produtivo brasileiro, temos que a relação produto-emprego no país tem se transformado. Cada vez mais há uma menor resposta da variação do emprego à variação do PIB, ou seja, as variações na produção tem demandado cada vez menos mão-de-obra, o que significa menor geração de vagas e elevação do desemprego. Tal fenômeno é percebido pela redução do coeficiente beta na Lei de Okun, registrando novamente o fenômeno "Labor Hording", que até pode ter seus efeitos positivos por evitar grande elevação do desemprego em crises de produção.


 Além do PIB, temos a inanição do investimento, que impede que a economia amplie em muito sua capacidade produtiva. Nosso nível de investimento está abaixo de seu potencial. O IBRE previu uma taxa de investimento com relação ao PIB em 2014 de 17%, sendo que, em 1989, a mesma taxa era de 26,9%. O cenário para investir no Brasil tem se degenerado por causa do aumento da taxa básica de juros, a elevação dos custos (como a atual oneração na folha de pagamento) e a incerteza generalizada dos investidores em relação à nossa economia. Todos esses fatores impedem a criação de novos postos de trabalho.


 Outra variável que promete elevar o desemprego é o rendimento médio das famílias brasileiras. O crescimento deste indicador foi de apenas 0,4%, perante a 1,7% em janeiro do ano passado. A queda do rendimento familiar deve aumentar a procura por emprego, impedindo que a recente geração "nem estuda, nem trabalha" seja automaticamente sustentada.


 Por último, devemos salientar a relação inflação-desemprego, explicada pela Curva de Phillips. A nossa inflação vem subindo consideravelmente, atingindo, por vezes, o teto da meta. Este indicador é perigoso para o mercado de trabalho, pois a nossa Curva de Phillips está cada vez mais achatada, significando que está cada vez mais custoso, em termos de desemprego, combater a inflação. Tal resultado foi apresentado em estudo pelo então presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.



Com todos esses índices, podemos perceber que a expectativa para o mercado de trabalho brasileiro é preocupante, de forma que não seria surpresa alcançar um desemprego entre 6% e 8%. Cabe ao governo ativar os mecanismos adequados para controlar essa taxa, fornecendo melhor cenário para se investir e maiores estímulos à produção.


*Graduando em Economia-UFF

24 de fev. de 2015

Para além do trade-off entre inflação e desemprego

Por Matheus Rabelo*

Um dos trabalhos mais importantes em economia no século XX foi, com certeza, do economista neozelandês A.W.Phillips (1958), que originou a chamada curva de Phillips. Este autor encontrou, através de métodos estatísticos e utilizando dados que cobriam mais de cem anos da economia inglesa, uma relação negativa entre a variação dos salários nominais e a taxa de desemprego. Muitos trabalhos posteriores trataram de lidar com as fundamentações teóricas dessa relação.


Essa relação também pode ser  expressa em termos de inflação vs desemprego, o que suscitou um dos maiores debates dentro da macroeconomia, que gira em torno do trade-off de curto prazo entre essas duas variáveis. Este debate é importantíssimo, principalmente se tratando de política econômica, pois os resultados da curva de Phillips indicam que para se combater a inflação, as autoridades monetárias necessitam sacrificar o nível de emprego.


Ao longo do desenvolvimento do debate em torno deste assunto, novas formulações para a relação entre inflação e desemprego foram propostas. A maior contribuição nesse aspecto, foi a incorporação de um termo na equação da curva de Phillips que representa o nível de preços esperado, ou dito de outra forma, um termo que representa as expectativas dos agentes em relação à inflação futura. Os mecanismos nos quais as expectativas são formadas também foram tema de discussão:

(I)                 Expectativas adaptativas: os agentes corrigem suas expectativas em relação ao valor esperado de uma variável de acordo com os erros que cometeram no passado;

(II)               Expectativas racionais: os agentes fazem uso de todo o conjunto de informações disponíveis, tanto do passado quanto do presente e o valor esperado de uma variável sempre coincide com seu verdadeiro valor, a não ser quando ocorrem choques aleatórios que não podem ser previstos;

Então, o formato da curva de Phillips que é utilizada para fazermos a análise da relação entre inflação e desemprego é da seguinte forma:















De acordo com essa equação podemos perceber ao menos 3 causas para a inflação:


(i)                  Ela existe simplesmente porque as pessoas acreditam que haverá inflação – inflação provocada pelas expectativas;

(ii)                Porque a taxa de desemprego se situa abaixo do seu nível natural, ou seja, o produto supera o potencial levando a elevações de preços, correspondendo à chamada inflação de demanda;

(iii)               O elemento aleatório na equação capta choques que podem ocorrer na economia, tal como um choque de oferta que acarreta em aumento dos preços de matérias-primas, pressionado a inflação – inflação de custos;


A inflação causada pelas expectativas, ou seja, pelo simples fato dos indivíduos acreditarem que haverá inflação, foi visivelmente a maior causa para os resultados em termos de inflação no ano de 2002. A incerteza na economia causada pela possível eleição de Lula, principalmente pelo seu viés político-ideológico que mudaria os rumos da política econômica que havia sendo trabalhada no governo de Fernando Henrique Cardoso, levou os indivíduos a acreditarem que haveria inflação e com isso, a anteciparam.


A inflação de demanda, que é provocada quando o produto está acima do seu potencial, significa que há um excesso de demanda agregada que é refletido pela elevação do nível geral de preços. No Brasil, houve o que se chama de descoordenação de política econômica. Ao mesmo tempo em que o Banco Central elevava a taxa de juros básica da economia (SELIC) para tentar fazer com que a inflação convergisse para o centro da meta, o governo promovia políticas de incentivo ao consumo , seja por meio da elevação da renda disponível com a redução de impostos, seja com o incentivo ao crédito. Como sabemos que o consumo das famílias é componente da demanda agregada, a elevação do consumo, ceteris paribus, leva ao aumento da demanda agregada que provoca a chamada inflação de demanda.


A inflação de custos, é provocada quando por conta da ocorrência de um choque aleatório na economia, os fatores de produção encarecem e se refletem em elevação do nível geral de preços. O grande exemplo da inflação de custos provocada na economia mundial se relaciona diretamente com os dois grandes choques do petróleo na década de 70. Os países da OPEP decidiram por restringir a oferta mundial de petróleo (choque de oferta), o que acabou por encarecer essa commodity. Por conta de ser uma matéria-prima utilizada na produção de muitos bens, o nível geral de preços sofreu uma elevação porque ficou mais caro produzir esses bens.


Na semana passada vivenciamos a maior desvalorização nominal do real frente ao dólar dos últimos dez anos, alcançando o nível de R$ 2,90 por dólar. As indústrias já trabalham com uma taxa de câmbio (real/dólar) média de R$ 3,00 para o ano de 2015. Esse comportamento da taxa de câmbio pode provocar uma inflação de custos, simplesmente porque as indústrias que importam bens de capital e produzem bens comercializados no Brasil, repassam o maior custo com os fatores de produção para o preço final do produto.


Em uma situação especial em que a inflação esperada seja zero e que não ocorram choques de oferta, a única explicação para a inflação passa a ser o nível de emprego. Pela relação sugerida pela curva de Phillips, quanto maior a taxa de desemprego, menor é a inflação.


Como ilustração dessa relação, utilizaremos dados da economia brasileira e faremos uma correlação cruzada entre as duas variáveis. A variável utilizada como proxy para a inflação foi o IPCA (IBGE) e a variável utilizada como proxy para a taxa de desemprego foi a PME (IBGE), ambas com início em janeiro de 2012 e término em dezembro de 2014. Para o cálculo das correlações cíclicas entre as variáveis, trabalharemos somente com os ciclos das duas séries e para isso, fizemos uso do Filtro HP.


Utilizando a função ccf do R, podemos encontrar a correlação cruzada com 3 defasagens, isto é, a correlação cruzada entre as variáveis em 3 períodos para trás e 3 períodos para frente.

Variável
t-3
t-2
t-1
t
t+1
t+2
t+3
Inflação
0,119
0,194
0,462
1,000
0,462
0,194
0,119
Desemprego
0,147
0,050
-0,239
-0,537
-0,486
-0,509
-0,477

O índice temporal, representando por t, significa período atual, que no nosso caso é dado em meses. Com isso, t-1 denota mês anterior, t+1 denota mês posterior e assim sucessivamente.


A correlação é uma medida de associação entre duas variáveis X e Y. O coeficiente de correlação, como também é chamado, satisfaz à seguinte condição:



Onde quando mais próximo de 1 (ou -1) o coeficiente de correlação estiver, mais forte é a associação linear positiva (ou negativa) entre as duas variáveis.


Com isso em mente, podemos retirar algumas informações importantes da tabela acima.
A primeira delas é de que a correlação contemporânea, isto é, no momento t do tempo, entre inflação e desemprego é de -0,537. Isso significa que a relação negativa entre as duas variáveis, proposta pela curva de Phillips, se confirma. Além disso, essa associação de -0,537 significa, grosso modo, que aproximadamente 53,7% da inflação é explicada contemporaneamente pela taxa de desemprego.


Se o nosso objetivo é antecipar a inflação no período t com a informação que temos sobre a taxa de desemprego no período t-1, podemos olhar para a correlação cruzada das variáveis no período t-1, que é de -0,239. Grosso modo também, significa que aproximadamente 23,9% da inflação no período t é explicada pela taxa de desemprego no período t-1 (defasada em um período no tempo).


A função ccf do R também nos fornece os gráficos das correlações cruzadas e seus respectivos intervalos de confiança (representados pelas linhas pontilhadas em azul).

Fonte: IBGE. Elaboração própria.
Fonte: IBGE. Elaboração própria.



Essa análise das correlações cruzadas se constitui em um primeiro passo para o estudo empírico dos determinantes exógenos da inflação. Os resultados que obtivemos saíram de acordo com o sugerido pela teoria econômica, qual seja: a existência do trade-off entre inflação e desemprego, ao menos no curto-prazo.



*Graduando em Economia-UFF


10 de fev. de 2015

As entrelinhas da taxa de desemprego no Brasil

  Por Johann Soares


Na história recente do Brasil tivemos inúmeros avanços sociais e econômicos, avanços estes que colocaram o país como centro das atenções na economia mundial, fornecendo otimismo e pujança para todos os brasileiros. O país aumentou em muito sua produção, reduziu a inflação a taxas aceitáveis, implantou melhorias sociais de distribuição de renda e criou uma enormidade de vagas de emprego, o que foi possível com a melhoria das condições para os investidores, que instalaram e expandiram empresas no país. Todo esse panorama contribuiu para que a taxa de desemprego brasileira caísse para níveis irrisórios, colocando o país em contraste com as potências mundiais que, na mesma época, estão sofrendo com taxas de desempregos mais altas. Esse histórico de queda pode ser visto no gráfico a seguir.
             
Fonte: PME - IBGE. Elaboração própria


  Entretanto, a taxa de desemprego não é uma variável tão intuitiva. Ela possui muitos aspectos em suas entrelinhas e só poderemos compreender sua variação a partir da análise das variáveis componentes. Por exemplo, quando a taxa de desemprego aumenta, não significa necessariamente que os agentes estão sendo demitidos de seus empregos, mas, de outra forma, pode significar que determinados agentes que não procuravam emprego, passaram a requerê-lo, ou seja, o tamanho da força de trabalho aumentou. Precisamos então, compreender esses aspectos ocultos da taxa de desemprego e entender como eles contribuíram para a sua queda, juntamente com os avanços já citados.


  Inicialmente, temos a questão da metodologia de pesquisa dos órgãos que calculam a taxa de desemprego no Brasil. As duas grandes instituições que prestam esse papel são o IBGE, por meio da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), e o DIEESE, por meio da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). Apenas comparando a metodologia desses órgãos e seus respectivos resultados, conseguiremos entender qual a magnitude do impacto metodológico na taxa de desemprego.

  A principal diferença entre as duas metodologias é a noção de desemprego aberto e desemprego oculto. No DIEESE, o desemprego total é a soma do desemprego aberto com o desemprego oculto pelo trabalho precário e o oculto pelo desalento. Isso significa que são desempregados todos aqueles que não trabalharam ou não procuraram emprego na semana de referência, mas o procuraram no restante do mês. Além disso, estão inclusos os indivíduos que realizaram atividades informais ou descontínuas e aqueles que pararam de procurar trabalho, mas ainda querem trabalhar. Já no IBGE, os “desempregados ocultos pelo trabalho precário” são considerados como empregados, o que faz com que tal pesquisa seja menos rigorosa que a formulada pelo DIEESE e, portanto, suas taxas sejam menores. No gráfico a seguir, podemos ver uma comparação entre ambas. 

Fonte: PME - IBGE/PED - DIEESE. Elaboração Própria.


  Dessa forma, é possível perceber que a metodologia influencia o valor de todas as taxas conjuntamente e não a variação entre elas. Portanto, de forma mais intuitiva e análoga, podemos dizer que esta variável oculta desloca a curva da taxa de desemprego, mas não altera sua inclinação. Portanto, ao se deparar com uma taxa e analisar seu nível, devemos ter noção da metodologia utilizada na pesquisa.


  Outra questão oculta que influencia significativamente a taxa de desemprego de um país é o tamanho de sua força de trabalho que, no Brasil, é chamada de população economicamente ativa (PEA). Quando a força de trabalho de um país varia, a taxa de desemprego é transformada. Então, se não houver uma análise contundente do assunto, pode-se atribuir à variação do desemprego, causas não realistas. Tal fenômeno vem ocorrendo no Brasil, pois ao analisarmos a magnitude de todos os componentes da taxa de desemprego, poderemos perceber que ela não está reduzindo por causa do dinamismo do mercado brasileiro e sua criação de vagas de trabalho. Pelo contrário, tal queda ocorre por causa de uma redução considerável da PEA, sinalizando a desistência dos indivíduos pela procura de emprego.


  Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o crescimento estimado do PIB brasileiro em 2014 será de 0,3%, valor incompatível com a explicação de que a taxa de desemprego está reduzindo por causa do aquecimento do mercado, pois tal crescimento econômico está abaixo da taxa natural de crescimento do Brasil (2,24%), o que, a partir da Lei de Okun, significa que não haverá pressão para baixo sobre a taxa de desemprego. Além disso, a criação de empregos no país é frágil, sendo que, entre janeiro e agosto de 2014, foram gerados cerca de 750 mil postos de trabalho formal no Brasil, uma redução de consideráveis 32% em relação ao mesmo período de 2013. Portanto, nem sempre a queda da taxa de desemprego significa algo vantajoso para o país. Em nosso caso, menos vagas estão sendo criadas e menos pessoas estão se tornando economicamente ativas.


  Segundo a PME, em dezembro de 2012, a força de trabalho representava uma parcela de 57,8% de toda a população em idade ativa (PIA). No mesmo mês, no ano de 2014, esta mesma força de trabalho passou a representar 55,7% da PIA, anunciando uma queda bastante significativa na PEA brasileira. Para entendermos o quão impactante foi essa queda da força de trabalho em nossa taxa de desemprego, podemos utilizar o cálculo dos economistas André Gamermam e José Márcio Camargo, da Opus, gestora de investimentos. Segundo o cálculo, se o percentual de representação da PEA (taxa de atividade) se mantivesse estável nos 57,8%, a taxa de desemprego atual do Brasil praticamente dobraria, atingindo o nível de 8,04%.
          
Fonte: Opus.


  Tal constatação comprova que o fator mantenedor da taxa de desemprego no patamar atual é a flutuação negativa da população economicamente ativa. A partir do gráfico podemos perceber que esta variável oculta (força de trabalho), por sua vez e de forma análoga, altera a inclinação da curva da taxa de desemprego, não agindo como a metodologia de pesquisa, que influencia o descolamento da curva. Portanto, não podemos associar de imediato a redução da taxa de desemprego ao aumento do nível de emprego em um país. Contudo, precisamos entender exatamente qual o motivo da redução da força de trabalho, pois se trata de uma variável muito importante e que prejudica consideravelmente o nosso setor produtivo.


  Primeiramente, há o efeito da renda média da população, que transparece com o aumento real do salário mínimo. Como já foi dito, o Brasil avançou significativamente, fazendo com que os agentes adquirissem mais renda e, dessa forma, pudessem consumir mais. Com mais renda, os chefes de família passaram a poder manter dependentes em casa, o que fez com que muitos indivíduos não precisassem mais procurar emprego. O gráfico a seguir demonstra um aumento real do salário mínimo em quase todos os anos recentes, ilustrando essa elevação de renda dos brasileiros. Porém, é perceptível que provavelmente, no ano de 2015, não teremos um aumento real, pois a variação no IPCA deverá cobrir a variação nominal do salário mínimo.
             
Fontes: IBGE e Boletim Focus.. Elaboração própria.

Além disso, o aumento na renda média possibilitou a alocação dos jovens na educação, pois estes não precisaram mais trabalhar para sustentar suas famílias e puderam prosseguir na vida escolar. Por outro lado, houve também o aumento geral do número de vagas em universidades públicas, fazendo com que grande parte dos jovens adie sua entrada no mercado de trabalho.


  Tais efeitos são relativamente satisfatórios, pois sinalizam avanços sociais importantes no país. Entretanto, devemos ter cuidado com algumas variáveis. Por exemplo, o fenômeno de adiamento da entrada no mercado de trabalho pode ser uma estratégia governamental com o intuito de receber esta força de trabalho adiada bem mais capacitada, utilizando o capital humano como fator de produção importante. Porém, nada garante que esta força de trabalho adiada será realmente produtiva e capacitada. Outro exemplo é a parcela da população denominada informalmente como “nem estuda, nem trabalha”. Tal parcela é uma consequência da melhoria de renda, mas não trás nenhum aspecto produtivo agregado para o país, elevando a taxa de indivíduos dependentes.


  Os efeitos citados são mais presentes em jovens, e para ilustrar esta variação da força de trabalho via educação e elevação de renda média, utilizaremos os dados da PME. Nesta pesquisa, podemos identificar qual a variação da PEA por faixa etária, de forma que torna possível verificar a magnitude do efeito em relação aos jovens, adultos e idosos. Os dados nos mostram que, de 2012 para 2014, a quantidade de jovens entre 10 e 14 que participa da PEA reduziu pela metade. A queda ocorre em magnitudes menores, mas ainda significativas, com os jovens de 15 a 17 anos e os indivíduos entre 18 e 24 anos. Tais reduções indicam o adiamento da força de trabalho e o aumento da renda média.
         
  
Fonte: PME - IBGE. Elaboração própria.
  Quanto às demais faixas etárias da população, podemos perceber que apenas os indivíduos entre 25 e 49 anos, permaneceram num volume economicamente ativo estável. Porém, as pessoas com mais de 50 anos reduziram significativamente a sua participação, demonstrando que esta desistência de emprego é uma tendência geral, e não setorizada entre os jovens. Os fatores que podem explicar tal tendência mais generalizada são as séries de benefícios socioeconômicos que progrediram  rapidamente em nosso país. Tais benefícios elevam o salário de reserva da população (salário que se recebe por não trabalhar), o que torna o desemprego menos doloroso para os indivíduos, de forma que só valeria a pena trabalhar, se os salários aumentassem consideravelmente.


  O aumento do salário de reserva dos brasileiros pode ser ilustrado a partir dos benefícios sociais concedidos por programas governamentais (elevação do número de bolsas para estudantes, seguro desemprego, entre outros), além dos próprios aumentos de salário mínimo que elevam, por exemplo, o montante concedido aos aposentados. Dessa forma, com um maior salário de reserva, os aposentados podem se contentar mais facilmente com a aposentadoria, não gerando uma pressão em busca do emprego. Tal fenômeno consegue explicar a redução do percentual de pessoas com mais de 50 anos economicamente ativas. Além disso, há o envelhecimento da população e, por conseguinte, a mudança de nossa pirâmide etária, anunciando menor taxa de natalidade e maior quantidade de idosos, o que, tecnicamente, agrava a compressão da força de trabalho.


  Com todo este panorama podemos reconhecer que a taxa de desemprego é uma variável que deve ser tecnicamente analisada, pois seu índice não envolve apenas criação e destruição de vagas, mas compila vários outros fenômenos que foram discutidos neste estudo. A questão metodológica e o desalento (desistência de procurar emprego) devem ser considerados e só assim podemos descobrir quais fatores mantém a taxa de desemprego em um determinado nível. No caso brasileiro, ambos os fatores influenciam bastante, juntamente com o crescimento real de nossa economia na primeira década do século XXI, porém, a tendência recente é de variação via força de trabalho, elevando a taxa de dependência da população.



*Graduando em Economia-UFF